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Relação pais e filhos
A RELAÇÃO PAIS E FILHOS Marco Aurélio de Patrício Ribeiro Muitos pais fazem esforços incríveis para manter um bom relacionamento com seus filhos. Muitas vezes com enormes sacrifícios, inclusive financeiros, na ânsia de que, tendo tudo, seus filhos os aprovem mais. É triste ver pais muitas vezes, tornarem-se vítimas dos próprios filhos, que pedem cada vez mais e o que lhes é dado nunca é suficiente. Creio não ser dever dos pais dedicar todos os minutos de sua vida aos filhos, nem todo seu salário mensal, não devem também ser babás nem motoristas deles o dia todo. Não devem permitir que virem noites no computador, nem que falem horas ao telefone. Não devem sentir-se obrigados a motorizá-los aos dezoito anos nem dar-lhes viagens ao estrangeiro aos quinze. Não é dever dos pais pagar festas pomposas de formatura ou casamento. Quando os filhos casam, não é dever dos pais presenteá-los com uma casa ou apartamento para morar. O que devemos fazer pelos nossos filhos é criar neles um senso de responsabilidade e autoconsideração. Investir na auto estima evitando compará-los com os irmãos, primos ou outros de maior sucesso aparente. Lembre-se de que o excesso de críticas não torna nossos filhos melhores. Devemos ensiná-los a dizer não e a ter força diante de grupos de pressão. Devemos com nossos filhos corrigi-los no erro sim, sem sentimentos de culpa, mas evitemos usar substantivos negativos tais como: inútil, mal, incompetente e incapaz. Lembre-se de que as crianças têm a mania de tornar-se aquilo que se fala delas. Temos a obrigação de balancear as críticas negativas com elogios. Caso você tenha dificuldade de usar palavras para exaltar os feitos de seu filho, use o corpo, um sorriso ou uma simples carícia tem um valor eterno. Lembre-se de que para a criança e o jovem o contato físico é uma expressão marcante. Os pais devem aos seus filhos uma disciplina coerente e consistente. A criança e o jovem precisam de balizadores disciplinares para sentirem-se amparados na vida, do contrário trarão dentro de si uma profunda sensação de solidão e abandono. Quando os pais dão um não consistente e corretamente, estão dizendo aos filhos que os amam ao ponto de enfrentar a raiva deles a vê-los em apuros. Os pais devem ensinar a seus filhos a importância do espírito democrático na vida e na política, devem ajudá-los a fugir de toda e qualquer forma de fundamentalismo e ensiná-los a ser tolerantes com os mais velhos, com as pessoas deficientes, com as crianças e principalmente com os mais pobres. Devemos respeitar o espírito crítico natural do jovem o que o ajudará a criar sua própria personalidade. Devemos respeitar a forma como se relacionam com seu corpo, orientando-os em relação à necessidade de hábitos saudáveis. Devemos afastá-los com toda nossa força de qualquer forma de escravidão, principalmente a das drogas e do álcool. Os pais devem respeitar a intimidade dos filhos, respeitando seus espaços. As buscas de abertura desses espaços devem ser desejadas, mas sempre através do diálogo e de um espírito mútuo de compreensão. Se isso não é possível, é porque a comunicação vai mal e é aí que se deve investir. Desenvolva nos seus filhos o hábito de ler. A leitura é uma porta aberta para o mundo, além de um instrumental para toda a vida. Cobre dos filhos que pensem sobre o que leram. Oriente-os que ao lerem, “leiam como quem pergunta”, mantendo uma postura crítica sobre o texto lido, alimentando o que Paulo Freire chamou de “curiosidade epistemológica” que irá auxiliá-los a ler o mundo de uma maneira mais crítica e verdadeira. Os pais devem ensinar aos filhos valores sólidos sobre os quais vão estruturar sua personalidade, daí a importância de ensinarmos o respeito aos professores, às leis e à pátria. Dar aos filhos uma formação espiritual é imprescindível. Nós pais temos que ser exemplo de justiça e honestidade, assim levaremos nossos filhos a indignarem-se com a impunidade e com a corrupção. O maior dever de cada um de nós pais é sermos a própria expressão do que ensinamos. É pelo exemplo que os ensinamentos se solidificam. Como podemos querer jovens justos e solidários se nós pais não cumprirmos nossas promessas, formos arrogantes, desrespeitarmos as regras, mentirmos, acharmos natural furtar pequenas coisas de hotéis, desrespeitarmos o marido ou a esposa com atos ou palavras e principalmente agirmos constantemente como pessoas egoístas ? Uma criança que vê em seu lar o ensinamento e a vivência de um relacionamento pautado pela moral e pela ética com certeza terá fundamentos na sua personalidade para ser um cidadão na sociedade preocupado em viver esses valores. Tentar é preciso. Conheço casais que foram muito bem sucedidos e contribuiram pela formação que deram a seus filhos para tornar nossa sociedade um espaço melhor para se viver. O perigo do excesso de cuidado. Proteger os filhos é uma obrigação dos pais. Sem o amparo e a proteção dos adultos, o bebê não consegue sobreviver, pois é indefeso e vulnerável. É normal que, preocupados com a saúde de seus filhos, os pais os proíbam de brincar num parque onde animais freqüentam. Essa é uma atitude saudável , de proteção. No entanto, alguns pais mandam esterilizar a chupeta do filho de hora em hora, aí você tem um exemplo de proteção exagerada. Apesar da fragilidade do ser humano ao nascer, ele precisa de liberdade para desenvolver sua autonomia e para descobrir o mundo, aprendendo assim com o ambiente físico que o cerca e com as pessoas com quem se relaciona. Por amor, o desejo de que os filhos não sofram é natural nos pais. O problema surge quando, em nome desse desejo, a ação protetora dos pais atrapalha a formação da personalidade dos seus filhos. A superindulgência, também conhecida como superproteção, tem a capacidade de impedir que os filhos possam vivenciar momentos de pequenas frustrações durante sua evolução da infância à idade adulta, perdendo a chance de desenvolverem uma personalidade capaz de lidar tanto racionalmente como emocionalmente, com situações de tensão e estresse que com certeza estarão presentes na relação destes com o ambiente social. O maior problema dos pais superindulgentes é que eles, na ânsia de acertar e no temor de errar, terminam não percebendo que ao fazer tudo pela criança, impedem que ela aprenda a lidar com seus próprios erros e com as frustrações que o mundo lhe impõe e que com certeza serão crescentes na medida em que for chegando a idade adulta. Aprender a lidar com frustrações é fundamental no processo de crescimento e desenvolvimento do caráter e da personalidade. Na maioria dos casos é importante que os desafios sejam enfrentados por conta própria para estimular o raciocínio e a autonomia. Os pais devem sim, estar abertos a apoiar seus filhos nos momentos difíceis da vida, mas necessitam incentivar que eles ajam encorajando-os seja na tarefa de casa ou nos problemas de relacionamento com amigos. Os pais adotivos ou que têm idade avançada tendem a ser mais superindulgentes, os pais de filhos únicos ou que nasceram prematuros também. Crianças criadas por avós estão diretamente sujeitas a superproteção. É comum que o excesso de amor aí presente retarde ou incapacite a criança de amadurecer para que chege a idade adulta com uma personalidade moldada para o enfrentamento do mundo. Por outro lado, pais ausentes, muitas vezes para amenizar um sentimento de culpa, procuram compensar seus filhos com excesso de zelo ou atendendo todos os desejos destes. Pais que tiram sempre os obstáculos do caminho dos filhos desenvolvem neles uma auto imagem negativa, pois estes passam a achar que não são capazes de fazer nada, pois seus pais resolvem tudo. Filhos de pais superprotetores tendem ainda a ser cada vez mais exigentes em relação a seus desejos de consumo e posse, tornam-se “donos do mundo” ao ponto de dificultar o respeito as regras na convivência social e de não conseguir desenvolver a capacidade de compreender que as pessoas podem ver o mundo de uma forma diferente da sua, têm dificuldade em superar o egocentrismo infantil. As crianças no seu desenvolvimento precisa de balizadores na sua conduta para dar-lhe segurança, portanto, é fundamental que se coloquem limites, que lhes mostrem as regras a serem cumpridas e que há coisas que não podem ser feitas. É aconselhável que desde cedo, a criança aprenda a ter algumas responsabilidades, como organizar seu quarto ou a bolsa da escola. Vivemos um tempo novo, onde o papel da família vem sofrendo mudanças. A busca por liberdade está num crescente nos dias atuais mas esta não deve anular a imagem da autoridade, uma autoridade que é parceira e não necessita ser impositora. Fazendo uso do diálogo, devemos mostrar aos nossos filhos que ser parceiro não significa deixa-los fazer tudo que querem, nem que seus pais façam tudo por eles. Devemos sim, educar nossas crianças para que progressivamente vão assumindo responsabilidades, construindo desta forma uma personalidade equilibrada. Vamos tentar ? Alguns pais vêm sendo muito bem sucedidos. A hora de dizer não Sentimentos de indignação e repulsa é o que se vê numa espécie de revolta da sociedade contra os jovens que praticam violência. Por que tanta repulsa? Afinal, na maioria das vezes, tudo começou como uma brincadeira, “coisa da juventude” ! Esses jovens são o produto do que os adultos fizeram deles: inconseqüentes, prepotentes, sem limites e confiantes na impunidade que a cada dia parece crescer mais, dando proteção aos “poderosos”. O respeito às leis e aos outros, a responsabilidade e a formação do caráter não aparecem da noite para o dia. A educação de um cidadão começa antes, quando criancinha. Quando chutava a mãe, a tia, a professora, quando jogava objetos na empregada, nos coleginhas; quando “tudo era coisa de criança” e os limites seriam dados depois. Conversar, dialogar com a criança? Não havia necessidade. “Isso passa com o tempo” é apenas “uma fase”. E o tempo passou e chegou à adolescência, que também passará. Mas antes o adolescente chegará em casa com jaquetas, tênis de griffe, relógios importados, cds e ninguém perguntará onde os conseguiu e, se perguntarem, aceitarão a resposta de que um colega lhe emprestou ou que achou em algum lugar. Se chega bêbado em casa, ouve apenas um sermão; se bate o carro da família, a preocupação maior é limpar o nome na polícia, pois é importante manter sua ficha limpa e evitar problemas futuros mais graves. E a escola o que faz por ele? Muitas vezes, pouca coisa, pois falta apoio das famílias e da sociedade em geral para posturas mais disciplinadoras por parte das instituições de ensino. Hoje, o aluno pode quase tudo. As leis estão aí para ampará-lo. Quando é reprovado ou expulso da escola por atos de indisciplina, as liminares aparecem rapidamente para corrigir as “injustiças dos professores”. Quando é repreendido pelo professor durante a aula, no dia seguinte ouve seus pais dizendo: “não admito que falem assim com o meu filho. Ele não mente!” Isto é, o mentiroso é o professor. Quando as notas estão ruins, muitas vezes a transferência para outra escola que não o reprovará, é feita com rapidez. Depois de conviver com esse tipo de educação, com essa permissividade, como poderíamos ter adultos responsáveis e de bom caráter? Ouvimos e dizemos a todo instante: “os jovens de hoje não tem limites”. Muitos não têm mesmo, mas por nossa culpa; nós, pais, que também não sabemos lidar com nossos limites. O limite é o primeiro passo no caminho de darmos aos nossos jovens uma estrutura de formação sólida para as suas personalidades. Os outros passos são amor, carinho, diálogo; o não firme na hora certa e principalmente o exemplo. Somente assim é que poderemos contribuir para a formação de cidadãos de qualidade. É bom lembrar sempre que a sociedade é constituída por nós mesmos.
A Rebeldia na Escola e o Neoliberalismo no Brasil
Escrever sobre o papel social da escola e a rebeldia estudantil no atual contexto do capitalismo pós-industrial na década de 1990 e numa conjuntura política da implantação do neoliberalismo tardio no Brasil com suas políticas de ajustes fiscais e de cortes de gastos sociais e previdenciários, é uma tarefa fundamental. Nesse contexto, a educação – compreendida em caráter restrito como escolarização – retorna a cena como elemento fundamental de suporte à modernização da sociedade, no discurso renovado da educação formal como via de acesso ao desenvolvimento do país e de superação da exclusão e da desigualdade social. Ressurgem agora com grande intensidade o debate sobre a escola e sua função social a partir da execução de programa neoliberal no país que enfatiza aspectos como: Implantação do Currículo Nacional, Descentralização Financeira, Gestão colegiada, Formação de Professores, Novas Metodologias de Ensino, Formação para o Trabalho, Avaliação Externa e Educação à Distância. Aparecem então, em linhas gerais, duas correntes interpretativas básicas. A concepção reinante nos centros do poder que reconhece a escola como lócus privilegiado para a qualificação dos trabalhadores nas habilidades necessárias ao manuseio das novas tecnologias e da nova organização social do trabalho e de gestão das empresas – e da escola. A segunda perspectiva, uma postura crítica ao entusiasmo oficial, ressalta as transformações corridas no âmbito da escola como decorrentes das mudanças no mundo da produção e das necessidades de reformulação no perfil e qualificação profissional dos trabalhadores. Mas numa perspectiva de reproduzir e ampliar a acumulação de riquezas e dar continuidade à concentração de riquezas e à exclusão social. Este ensaio consiste em observar quatro eixos fundamentais: - Análise de aspectos gerais do atual contexto social pós-industrial marcado por características de internacionalização global do capital, do trabalho, da produção e do consumo, num contexto favorecido pelas novas tecnologias e pela nova organização do processo produtivo, onde a educação passa a ter papel fundamental; - Contextualização histórica do que chamo de neoliberalismo tardio no Brasil como projeto político articulado daquele contexto histórico, compreendido como peça central do processo de acumulação ampliada do capital e de sua valorização, analisando suas conseqüências na concentração de riquezas e exclusão social. Eu o chamo tardio porque ele aqui se consolida no início dos anos noventa, enquanto os demais países do continente já o haviam implantado na década anterior; - Compreensão do novo papel social da educação escolar nesse cenário de transformações, como contexto chave de reprodução da força de trabalho em dois aspectos fundamentais: - qualificação do trabalhador para as tarefas exigidas pelas novas tecnologias; - e preparação dos trabalhadores para as exigências das novas rotinas produtivas no âmbito das fabricas e das empresas; - Compreender também esse interesse pela escolarização fundamental como condição de possibilidade de reconstituição de identidades e subjetividades e não apenas de reprodução social entre os jovens. Nesse sentido, buscar nos estudantes da escola pública, em suas falas e gestos, uma postura significativa de reconstituição de identidades sociais individuais e coletivas. E perceber a rebeldia estudantil como aspecto relevante e significativo, condição de possibilidade de resistência e produção cultural. De acordo com Therrien (1996), uma importante preocupação teórica é compreender a vinculação existente entre a cultura, a educação das novas gerações e a escola na perpetuação da experiência humana sobre a terra. Compreendendo a cultura como a soma de tudo que pode ser pensado, vivido, formado e produzido pelos homens desde os tempos imemoriais, consolidados nos saberes cumulativos, nos sistemas simbólicos, nos instrumentos utilizados para assegurar as relações sociais e a própria sobrevivência. Relacionar escola, cultura e conjuntura social e econômica é outro desafio relevante a ser enfrentado. Nesse sentido, a escola transmite aspectos escolhidos, selecionados, fragmentos da cultura, numa totalidade aparentemente homogênea e articulada, mas selecionadas a partir do complexo jogo de poder, intenções e interesses, nem sempre facilmente identificáveis. A seleção cultural escolar não se constitui, portanto, atitude neutra ou desinteressada. O que se marginaliza ou se valoriza parte de conteúdos sociais revelados a partir da luta pela hegemonia entre grupos sociais pelo controle do poder e do saber do universo simbólico, sob a mediação da linguagem, esse também objeto de seleção e depuração de interferências indesejáveis. Forquin (1993). Para analisar a educação, tornaram-se clássicos da sociologia contemporânea os trabalhos de Bourdieu e Passeron (1975) em que introduzem a importante e controvertida categoria da Reprodução Social, bem como os estudos da teoria educacional crítica enfatizados por correntes teóricas como a Nova Sociologia da Educação, NSE inglesa, cujo principal expoente é Aplle (1989), além da Teoria Crítica com Giroux (1988). A respeito do inconformismo e da Rebeldia escolar recorremos a Willis (1991) onde são enfatizadas atitudes de Resistência e a Produção Cultural. A respeito do contexto histórico atual e do estudo de questões relacionadas à globalização, Estado, Mercado, Novas Tecnológicas, etc., podemos utilizar as análises pertinentes de Oliveira (1996), Gentilli (1995) e Anderson (1996), como referenciais para articular teoricamente as preocupações gerais desse trabalho. No desejo de articular os quatro pontos fundamentais da análise – internacionalização do capital, do trabalho e do consumo, implantação do neoliberalismo tardio no Brasil, revalorização da educação básica e da escolarização como acesso ao conhecimento e à produção cultural – faz-se necessário ir delimitando melhor a temática e aperfeiçoar o quadro conceitual teórico e as categorias de análise, o que será realizado no decorrer desse ensaio. Nesse momento, cabe apontar algumas questões básicas que eu denominaria conjunturais - estruturais que serviriam de base para a realização do trabalho como apoio teórico-metodológico introdutório. A GLOBALIZAÇÃO E A MUNDIALIZACAO DA EDUCAÇÃO BÀSICA: BREVE RESGATE HISTORICO. Falando-se em globalização, o Capital desde suas primeiras incursões na historia, revoluciona os processos de produção e de troca, internacionalizando cada vez mais suas atividades econômicas e a cultura. O mercantilismo, as grandes navegações, a revolução tecnológica, a constituição e apoio a regimes políticos de seu interesse – absolutismo monárquico, despotismo esclarecido, monarquias constitucionais e/ou parlamentares – o apoio ao desenvolvimento cientifico à cultura e às artes, o desenvolvimento dos transportes e comunicações, a importância dos mercados financeiros e dos meios de pagamento – ouro, libra esterlina, dólar -, são algumas das principais tendências de uma internacionalização já presente nos séculos XV e XVI que se confirmam dia-a-dia, atingindo no final do século XX níveis de complexidade até então considerados inimagináveis. Em 1995 Theborn define o neoliberalismo como uma superestrutura ideológica e política – num projeto econômico e de idéias articulado – que acompanha uma transformação histórica do capitalismo moderno tendo efeito e interferindo de maneira relevante no mundo simbólico, na educação das novas gerações e na cultura. Essas ordens de transformação capitalista poderiam ser mais compreendidas a partir de quatro ou cinco aspectos considerados fundamentais: - o declínio nos anos setenta do emprego formal que, de acordo com Hobsbawm (1996), entrava em declínio aparentemente inexorável logo após o auge da industrialização por volta da década de 1960. Ao resultado dessa desindustrialização sem precedentes, principalmente na Europa, se convencionou denominar de sociedades pós-industriais. Ressalte-se que essa crise foi agravada pelas políticas monetaristas de valorização das moedas pela elevação dos juros e cortes nos gastos públicos, previdenciários e sociais, cujo objetivo jamais revelado era, através do desemprego em massa, controlar os níveis salariais e neutralizar as reivindicações e organizações sindicais; - um segundo aspecto, contemporâneo ao primeiro, foi uma introdução de tecnologias mais flexíveis, especialmente nos setores de micro eletrônica e da informática, com influência imediata e decisiva nos níveis de produtividade e nas relações competitivas entre as empresas. Seja pela diminuição do espaço e do tempo das decisões estratégicas, seja pelo desenvolvimento de novas formas de gerenciamento e estratégias produtivas. Essas mudanças combinadas provocam novas exigências de qualificação profissional e na reorganização do papel e da importância das escolas, tanto na formação para o trabalho, quanto para a qualificação do trabalhador para as novas rotinas nas empresas; - como terceira questão, encontra-se o crescimento sem precedentes dos mercados em nível mundial, em especial a expansão dos mercados financeiros internacionais – em transações com moedas e papéis das dívidas dos paises, nos investimentos especulativos em ações, no comércio mundial de petróleo e de armas, na especulação e financiamentos imobiliários ou nos empréstimos bancários sem garantias. Tudo agravado pelos constantes déficits fiscais e comerciais norte americanos, bem como no financiamento a guerras repetidas e de opções e resultados estratégicos duvidosos, como na guerra fria e na luta contra o terrorismo, seja no Vietnã, no Iraque ou no Afeganistão; - outra temática essencial é a autonomia e descomunal crescimento desses mercados financeiros e das novas tecnologias que vão trazer, dentre outras, três características mais importantes: - o acirramento sem precedentes da competitividade entre países e empresas em estágio planetário; - e as relações com os estados nacionais que, ainda tendo importância, tornam-se muito menores e dependentes desse novo mercado financeiro de empresas e mega investidores mundiais; - e governos que necessitam de sua confiança e de seus investimentos para tomar iniciativas econômicas, implementar políticas e ancorar suas moedas. Como estratégias para atrair esses investimentos, restam o recurso à renúncia fiscal para atrair inversões financeiras e em tecnologia. - uma conseqüência que atinge diretamente a juventude é a crise social provocada pelas políticas de combate à inflação através da estagnação econômica e do desemprego. Além da concorrência das novas tecnologias, ele é provocado pelas políticas governamentais e de empresas como a contratação de serviços de terceiros e a precarização das relações de trabalho para facilitar as demissões, provocando intencionalmente a redução do poder de reivindicação dos trabalhadores e dos sindicatos. Todo esse modelo contribuiu para mais desemprego e uma maior informalidade no mercado de trabalho, para uma maior contenção e redução dos salários, ampliando ainda o corte no consumo e a diminuição na arrecadação de impostos. Isso veio a exigir para compensar o déficit fiscal, mais e mais cortes nas políticas sociais e previdenciárias, além das privatizações de empresas estatais. Esse modelo atinge diretamente as novas gerações e suas perspectivas de futuro, provocando sua descrença no futuro, na educação e na escola, com todo esse contexto tornando-se combustível para justificáveis ações de revolta e rebeldia. Vejamos o depoimento de uma jovem cheia de tatuagens e de muitos piercings: “Quando estou com um problema faço mais tatuagens ou coloco um piercing: porque a dor física, distrai a dor da alma.” (TV Sesc. Programa Corpos Modificados, 29/01/2010). Nesse contexto, a sociedade pós-industrial, a revolução científico-tecnológica, as novas formas de gerenciamento e administração das empresas e a expansão incontrolável dos mercados financeiros mundiais, vão provocando a urgência da reorganização produtiva e a agilidade na tomada de decisões, possibilitando a fusão ou a incorporação de empresas em conglomerados econômicos gigantescos. Além da articulação entre os governos regionais para a formação de blocos de integração entre os países. Todas essas iniciativas convergindo com o objetivo de estabelecer políticas que fossem atrativas aos investimentos privados, facilitando ainda mais a mobilidade de capitais através de mecanismos como a abertura de fronteiras e a renúncia fiscal. Aparecem aqui pelo menos duas de suas contradições fundamentais. A primeira de caráter ideológico e de sustentação e legitimidade política. Trata-se da destruição de amplos setores sociais pela atuação livre, mas com apoio governamental do mercado. Atingidos pelo desemprego, estagnação e pelo déficit fiscal, assiste-se ao corte nas políticas sociais e educacionais, na previdência pública e na assistência à pobreza, além da falta de mecanismos de absorção das novas gerações ao mercado formal de trabalho. Assim, em toda a década de 1990, em especial, viu-se crescerem, junto com o desemprego, a violência e a miséria, agravadas pela desesperança e a falta de perspectivas sociais de futuro. Fatores que provocaram uma crise de legitimidade e a possibilidade de novas crises sociais e econômicas - desde as crises da Tailândia, no México e nos Tigres Asiáticos, na Rússia, no Brasil e na Argentina, desde o final daquela década -, que puseram em perigo constante as aparentemente sólidas estruturas do sistema. Essas crises tomaram proporções gigantescas ao atingirem a própria economia norte-americana em setembro de 2008. Para salvar suas empresas automobilísticas e o mercado imobiliário, além dos bancos, foram necessários bilhões de dólares em ajuda governamental. Suas conseqüências foram, dentre outras, a queda do produto Interno Bruto dos Estados Unidos da América em 2,5% enquanto a economia japonesa, segunda economia do mundo, despencava também em 2009 aproximadamente 5 por cento. Uma segunda contradição diz respeito a aspectos econômico-financeiros estruturais. O capitalismo nunca foi, ao mesmo tempo, tão produtivo e tão especulativo. Paralelamente à crise social, as novas tecnologias, a nova organização e a gestão empresarial, o planejamento estratégico global, a expansão dos serviços, a produção, a circulação mundial e o consumo de produtos, revolucionam hábitos individuais, os costumes sociais e a vida cotidiana. Popularizando padrões de conforto e bem estar sem precedentes conhecidos na história mundial. Nesse sentido, Hobsbawm (ibidem. P., 13) afirma que, nem os ricos, os presidentes dos países, ou os príncipes e reis do início do século, viveram com as comodidades e o conforto experimentados pelas pessoas comuns das classes médias em seu dia-a-dia no final do século XX. No âmbito dos atuais contextos do simbólico e da cultura, no qual se inserem o mundo da juventude e da escola, de acordo com Ribeiro (1996), no atual contexto de globalização, aparecem novos pontos de referência sócio-culturais que vão gerar novos desejos e aspirações individuais e coletivas relevantes. O consumo, a propaganda e o marketing, novos padrões de beleza e moda, a circulação mundial de idéias, de produtos e do dinheiro num mercado supranacional, trazem à cena novas instâncias de poder e de informação que vão constituindo novas identidades sociais e subjetividades. Confirmando nossa tese inicial, o capital revoluciona a vida social modificando, como que de repente, os padrões de racionalidade, a construção da personalidade e os mecanismos de compreensão e expressão sobre a realidade. Novas formas de vida social e a valorização do conhecimento científico são variáveis fundamentais para se compreender a perspectiva das idéias predominantes de revalorização da escola como lócus privilegiado de constituição dessas subjetividades de um novo tipo. Esse é o caso, por exemplo, da necessidade da formação de jovens mais informados e escolarizados, mas numa perspectiva individualista e consumista, e que sejam, na medida do possível, desinteressados e apáticos em sua participação política. E que tenham controladas e represadas as expressões de sua rebeldia. Entretanto, educar é sempre um perigo. A capacidade de resistência mais ou menos consciente e organizada e a constituição de identidades sociais críticas dos jovens ao atual contexto histórico, são possibilidades concretas que jamais podem deixar de ser levadas em conta. ASPECTOS HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO DA JUVENTUDE O capital, com o objetivo implícito ou explicito de sua auto-valorização ampliada e acumulação ilimitada, revoluciona constantemente as forças produtivas, a organização do trabalho, as relações de produção e a qualificação do trabalhador - inclusive das novas gerações -, para isso necessitando cada vez mais da adesão da juventude, dos educadores e da escola. Esse sistema mundial descentralizadamente organizado, vai realizando, também progressivamente, a ampliação da escolarização como mecanismo de preparação das novas gerações para o trabalho e para a veiculação de novas idéias e comportamentos. Faz-se necessária também a disciplina e a interação dócil, mas criativa, necessárias à sustentação produtiva e política da ordem social. Em suas conferências sobre a historia da educação na França do século XIX, Durkheim (1995) confirma essa tendência, reconstituindo a disputa entre o ensino humanista destinado “à dialética como arte de discutir e ao cultivo da inteligência e das coisas literárias”, em oposição ao ensino “fundamentalmente científico”, ligado às necessidades materiais da vida e à conquista de uma “cultura profissional”. Agora relacionadas às atividades comercias ou industriais da nova ordem burguesa. Por sua vez, VARELA (1996), relacionando educação, promoção de subjetividades e reprodução social indaga, citando o sociológico alemão Norbert Elias, como as categorias temporais influem na regulação da conduta e da sensibilidade? Como as regulações sociais são incorporadas na estrutura social da personalidade? Lembrando Foucault ela conclui afirmando: O espaço e o tempo se reorganizam no século XVIII mediante um novo tipo de saber que se denominou saber disciplinar. Tal poder partiria do princípio de que é mais rentável vigiar que punir e castigar. Domesticar, normalizar e fazer produtivos aos sujeitos é mais rentável do que regulá-los ou eliminá-los. Trata-se então de um novo tipo de poder cuja tradição primeira se encontra na teologia e no ascetismo, numa consideração política das pequenas coisas, do detalhe. Surgem então processos de individualização ou atomização social. É nesse momento que os colégios – como a Igreja e o exército – vão cuidar das políticas do corpo e do espírito. E será através de repetidos rituais cotidianos que vão se definir comportamentos e atitudes, geralmente não reflexivas, de dominação e controle das subjetividades e dos diversos grupos sociais. Nesse sentido, sempre utilizando as categorias de espaço e de tempo, relacionando poder, saber e a produção social do individuo - uma forma de subjetivação onde prevaleceu a tentativa sutil do controle social -, Varela vai apresentar três grandes fases da evolução da educação moderna. - A educação disciplinar e o disciplinamento dos saberes; - As pedagogias corretivas e a busca da criança natural; - As pedagogias psicológicas, evolutivas ou das idades. No primeiro momento, ainda utilizando Foucault, ela apresenta algumas das transformações temporais desde o século XVII e a introdução de um poder de novo tipo, o poder disciplinar. Caracterizado pela influencia do ascetismo religioso e pela rígida disciplina militar, pela tentativa de controle das condutas e pela hierarquização presentes nos conventos e nos quartéis. Essa hierarquia e disciplina forjadas em instituições como as escolas, o exército e a administração pública, tem como característica básica a tentativa de controle social através de uma política voltada para o controle dos corpos e a conquista da obediência e da docilidade. Filas, classificação, rigidez nos horários, acompanhamento rotineiro do comportamento e das condutas, tornam-se estratégias relevantes naquela política educativa, também preocupada com a produção de indivíduos e subjetividades úteis à sociedade e ao sistema dominante. A educação dos jovens em locais apropriados, protegidos e confinados, vai tornar-se, cada vez mais, popular e massificada. Com a divisão do conhecimento em áreas delimitadas, as disciplinas, elas tornam-se também fundamentais, organizando os saberes até então dispersos em áreas científicas mais e mais especializadas, procedendo-se a articulação entre saberes locais e artesanais e os mais elaborados e universais, os saberes mais particulares e os gerais. Quanto aos novos discursos, citando a própria autora, já não de trata, como ocorria com a antiga ortodoxia escolástica, de se suprimir e censurar enunciados, mas de assegurar que esses enunciados remetessem a uma lógica concreta que permitisse vinculá-los a uma nova disciplina e situá-los nessa ordem quadriculada e hierarquizada dos novos saberes, reconhecidos e legítimos. (ibidem. P. 87). Tratando da catequese dos índios no Brasil colonial, Hoornaert (1991) também vai utilizar as categorias de espaço e tempo para compreender o disciplinamento das nações indígenas no Brasil colônia na chamada política dos aldeamentos. Ele apresenta a introdução da limitação do tempo através do toque do sino em determinados momentos do dia, ao lado da delimitação do espaço nas cabanas separadas na aldeia e do hábito de seguir a procissão católica, seguindo sempre a mesma direção e o ritmo determinados pelo sacerdote cristão e pela imagem do santo padroeiro. São mencionadas todas essas experiências que vão progressivamente domesticando o índio, segundo o autor, através do disciplinamento dos horários e do cerceamento especial. Confirmando no século XX, a presença ainda atual dessa pedagogia disciplinar que alcança a juventude e as escolas, McLaren (1991) vai analisar o cotidiano dos alunos de um ginásio “barra da pesada” em Toronto no Canadá em dois aspectos básicos que ele considera principais: - os rituais de sala de aula como as orações e os exercícios diários coordenados - a escola com sua representação ritualística; – e as várias formas de resistência e rebeldia estudantil diante da instrução. Aspectos que são reconhecidos como centrais para o debate sobre a juventude nos dias atuais. Ressalte-se que jamais será possível “controlar e domesticar” seres humanos – sejam os índios na colônia ou os alunos na modernidade – que sempre podem ser reconhecidos como sujeitos políticos e atores, mesmo em condições adversas, de sua própria história. Nas primeiras décadas do século XX surge uma nova forma de controle e adequação social com a finalidade básica de tentar promover a harmonia de interesses entre as massas trabalhadoras e as classes proprietárias, impedindo que se desenvolvessem, na prática, idéias de revolução anti capitalista. A escola torna-se então instituição obrigatória como mecanismo de salvação ante a ameaça de destruição do tecido social, da infância e da juventude, pela degeneração, pela violência e pela barbárie. Nessa escola, as chamadas Pedagogias Corretivas, terão por objetivo realizar uma nova socialização da infância, protegendo as crianças e os jovens, então expostos ao perigo da anormalidade e da delinqüência nas periferias e guetos das cidades. Para as crianças “insolentes, indisciplinadas, inquietas, faladoras, turbulentas, imorais e atrasadas” (idem, p. 89), inadaptadas ou excluídas da pedagogia disciplinar - os alunos “barra pesada” de quem nos fala Mc Laren -, seria oferecida uma nova metodologia escolar, tendo a criança como centro do processo educativo e num contexto que fosse propício a auto-educação. No espaço escolar renovado ocorre uma imitação da sala de aula ao espaço adulto em miniatura, com armários, materiais didáticos adaptados à estatura física, à comodidade e ao tamanho infantil. Denominada posteriormente como Escola Nova, terá grande influência no país através dos chamados pioneiros da educação a partir dos anos 1920. Importantes educadores brasileiros como Lourenço Filho, Filgueiras Lima, Anísio Teixeira, Fernando Azevedo entre outros, receberão influência dos reformadores educacionais estrangeiros Maria Montessori, Celestin Freinet e Odívio Decroly. Trata-se agora de superar o controle disciplinar exterior repressivo por um novo controle menos opressivo e operativo de natureza psico-pedagógica. A superação das disciplinas externas pela auto disciplina que possibilite uma socialização universal individualizada, válida para qualquer sujeito, desligada das classes sociais e da historicidade através de uma metodologia cotidiana experimental e da ação mediadora do mestre como guardião e protetor do meio (ibidem. P. 93 a 96). Formar uma personalidade disciplinada, ativa, equilibrada e adaptada são objetivos explícitos Montessorianos, onde se pode perceber a relação implícita entre uma redefinição do espaço e do tempo, em benefício da reprodução social, na tentativa velada de realizar cortes à rebeldia estudantil, que assume contornos mais sutis. Essa inovação e intervenção psico-pedagógica no século XX traz também o aumento da influência da psicologia na educação. Em princípio, a influência das psicologias cognitivas - também chamadas psicologias do “eu”, do desenvolvimento ou das idades -, vão generalizando o conhecimento e a aprendizagem infantis a partir de etapas universais de estágios evolutivos comuns a todos os indivíduos, independentemente de sua cultura, posição social, gênero, etnia ou contexto histórico. Parece tratar-se de uma criança “natural e universal”, nem por isso menos controlada que as escolares das velhas pedagogias. Tanto se exigia ou esperava-se delas as respostas corretas coincidentes com sua etapa de desenvolvimento cognitivo, quanto ela deveria ser sutilmente controlada por seu verdadeiro processo de desenvolvimento cognitivo. Jean Piaget, com sua epistemologia genética, torna-se o grande expoente dessa corrente psico evolutiva, bastante influente nos dias atuais. Ainda segundo Varela (ibidem, p. 99 a 101), desenvolve-se também uma pedagogia individualizada de influência psico pedagógica, que vai buscar compreender e motivar o educando em suas reais necessidades psicológicas, buscando superar seus traumas, complexos, frustrações e inseguranças a partir do trabalho interativo e em grupo, nessa busca complementar de superação dos conflitos e problemas afetivos. A educação é compreendida aqui quase como uma psicoterapia, com a função intermediária da conquista de equilibração emocional, no objetivo maior da integração social. O norte americano Karl Rogers, principalmente na década de 1960, tornou-se seu grande expoente, sendo ainda relativamente influente em nossos dias. A regulação espaço temporal torna-se ainda muito mais flexível, adaptando-se à dinâmica e ao ritmo particular de cada indivíduo e de cada grupo. Quanto aos saberes e conteúdos educacionais, tornam-se secundários, superados em sua import6ancia pela postura metodológica mais dialógica e expressiva, centrada no aluno e nos processos educativos. Não se trata mais da ênfase sobre o que se deve aprender, mas de enfatizar o como aprender. Assim, formar o professor significa dar a ele condições para preocupar-se com metodologias e técnicas de ensino, tornando-se os jogos e as dinâmicas de grupo, os aspectos essenciais daquele processo formativo. Essa psicologização da educação escolar, seja ela individual ou de um grupo, assume lugar de maior importância em tempos de influência das idéias neo liberais na educação nos anos 1990, retornando às teorias pedagógicas da década de setenta. Nos derradeiros momentos do século XX e nos anos iniciais do século XXI, a globalização sem precedentes acompanha e provoca a mundializaçào da educação básica como condição essencial e indispensável para a reprodução do capital e para a as novas exigências de qualificação dos trabalhadores. Nesse caso, um retorno histórico, analítico e interessado às teorias educacionais esboçado acima, deve ser concomitante à compreensão da valorização da escola e da atualização do debate sobre as relações de poder entre os muros dos colégios, na relação atualizada entre alunos e professores. É importante compreender a educação e o currículo, como a compreende a filosofia da consciência, também conhecida como historicismo. Para ela, a realidade é uma construção da ação humana e que os sujeitos sociais são guiados por propósitos. Em sua atividade cotidiana eles produzem mudanças muitas vezes intencionais, ou mesmo a partir de circunstâncias não- intencionais. Assim, a educação jamais pode representar apenas controle social e subjetivo, seja do pensamento, seja das atitudes. Talvez por isso, a criatividade e a criticidade, não poderiam jamais serem desconsideradas, quando se fala em instituições humanas e em qualquer outro aspecto que se refira à humanidade, especial à educação e à escola. A REBELDIA DA JUVENTUDE: Algum lugar para além do determinismo e do voluntarismo Compreendemos aqui de maneira resumida a escola como participante ativa do universo mais amplo do mundo simbólico e da cultura. A percebemos também em seu contexto como um poder derivado ou influenciado e dependente de um poder maior e de natureza complexa seja ele derivado da economia ou do Estado. Para Enguita (1988) haveria duas grandes concepções explicativas sobre a função social da escola: - a funcionalista ou sistêmica, para quem a escola serviria para formar crianças e torná-las autônomas e aptas para desempenhar papéis sociais de adultos. Além de cumprir a missão social mais ampla de realizar a modernização e o progresso social; - no extremo oposto, teríamos as teorias da reprodução social que definiriam em última instância a escola atual como reprodutora das relações capitalistas dominantes, com o papel específico da reprodução das classes e das relações de produção, contribuindo de maneira decisiva para a manutenção dos sistemas de poder. Podemos ainda relacionar variações dessas concepções entre o determinismo estruturalista – concepções estáticas sobre a escola -, definindo-a como cumpridora de papéis sociais, reprodutora de relações de opressão; – e o voluntarismo culturalista – concepções e teorias críticas que supervalorizam as condições de possibilidade de libertação social a partir da ação cultural e de práticas escolares. O esforço inicial é encontrar elementos que possibilitem uma visão mais realista e menos extremada que dê conta do poder derivado, mas relevante, da instituição escolar, do ponto de vista do encontro de concepções e atitudes críticas entre os atores na escola. E, mesmo reconhecendo suas limitações históricas, buscar compreender as finalidades de sua atuação na rebeldia da juventude, a contestação e suas possibilidades de questionamento e ruptura dos limites impostos pela realidade. Nesse sentido, continuamos com Enguita (1988) e recorremos aos formuladores da Teoria Crítica ou pedagogia Radical como Giroux (1988), utilizando ainda pesquisas etnográficas relevantes como a pormenorizadamente descrita em Willis (1991). Nesse último trabalho, são identificados dois grandes grupos que definiram, em linhas gerais, tendências de atuação dos jovens na escola. O primeiro grupo seria constituído e denominado como os “pró - escola”, caracterizado por ser composto por alunos estudiosos que obtinham bom rendimento escolar, sendo em geral valorizados no ambiente da escola como jovens exemplares e de futuro. Num outro extremo, um grupo de atuação explícita e reconhecida como “anti - escolar” e de repúdio individual e coletivo a autoridade, fosse ela exercida pelo diretor ou pelos professores. Em seu dia-a-dia tinham um comportamento característico e estereotipado, sendo reconhecidos como brigões, esportistas, de vida social ativa e bom conceito – entre as mulheres. Reconhecendo a existência de inúmeras variações e a existência de modelos intermediários de atuações diferenciadas, a delimitação desses grupos aponta para duas tendências básicas com relação ao poder e à rebeldia cotidiana nas escolas: - Os “pró - escola” ou conformistas – CDF`s para os rebeldes – que possivelmente, teriam aderido ao programa escolar por haverem obtido êxito e conquistado status, num ambiente de surda e disfarçada, mas de acirrada competição. O que lhes garantiria certo reconhecimento social, num universo sócio-cultural que lhes destinaria poucas oportunidades de ascensão social. - em certa oposição a eles encontrar-se-íam-se os “anti - escola”: rebeldes e inconformistas com práticas cotidianas, em geral, agressivas e ostensivas de indisciplina e fuga das aulas. Sendo arredios e rebeldes diante das normas estabelecidas. Quanto à rebeldia entre os estudantes brasileiros, ela pode ser explicada a partir da delimitação de pelo menos quatro grandes grupos principais, cada um deles reunidos a partir de algumas de suas características mais visíveis. Os três primeiras apresentados como os “anti escola”: - os primeiros são aqueles mais turbulentos e agressivos. Atuando individualmente ou em grupos, podem tornar-se incontroláveis e violentos com sua agressividade podendo até atingir, indistintamente, com maior ou menor gravidade, tanto alunos quanto professores; - o segundo grupo, poderia reunir aqueles jovens escolares tidos como indisciplinados e não cooperativos que, não raramente, poderiam faltar ou chegarem atrasados a muitas aulas, ter baixo aproveitamento escolar, tirar notas baixas, repetirem o ano ou, simplesmente, abandonarem periodicamente ou em definitivo a escola; - como um terceiro e numeroso grupo encontramos os que apresentam uma rebeldia mais silenciosa e mais contida, sendo caracterizados pelos colegas e pelos educadores através de adjetivos amplos e imprecisos como fracos, apáticos, desmotivados e desinteressados, pouco responsáveis e displicentes; - quanto ao quarto grupo, ele poderia ser classificado de maneira genérica como os “pró escola”, considerados estudantes mais ativos, participativos e interessados, que apresentam um bom rendimento escolar, apesar das dificuldades, revelando-se ainda mais atuantes, presentes e participativos nas diferentes atividades artísticas e culturais promovidas pela escola. Eles declaram-se muitas vezes insatisfeitos com a “desordem” e com a “bagunça” promovidas pelos seus colegas, rebeldes ou desinteressados, o que os impediria de conseguir um melhor aproveitamento escolar. A respeito desse grupo mais interessado, é reveladora a observação de uma jovem aluna de uma turma de educação de jovens e adultos, a respeito de seus colegas indisciplinados que se posicionavam, segundo ela: “Sentados de qualquer jeito”, bem no fundo da sala: “Professora, eles não querem nada. Não estudam e nem deixam os outros estudarem. Não aprendem, nem deixam os outros aprender.” Vale ainda ressaltar que, aquelas características apresentadas acima, não constituem modelos puros, muito bem definidos, completamente separados e incomunicáveis. O que podemos observar é que muitos daqueles jovens estudantes transitam entre os mais diferentes e variados modelos de comportamento, caracterizados por mesclarem entre si, muitas daquelas características, imprevisivelmente combinadas. Para compreender os fenômenos de rebeldia apresentados podemos iniciar afirmando que: - esses jovens estudantes buscam conquistar respeito e reconhecimento entre seus pares; - outra explicação possível é a expressão incontida de sua revolta motivada pelos mais variados problemas familiares e pessoais; - nunca nos esquecendo de levar em conta suas precárias perspectivas de futuro, sua pobreza e situação social; - uma outra possibilidade seria uma rejeição contra uma escola e seu modelo educacional que provocava, em muitos alunos, uma relevante e notória incapacidade de aprender; - outra possibilidade é compreender que a juventude e a adolescência são caracterizadas como um tempo de insatisfação e revolta contra as instituições, as diferentes formas de poder e o exercício da autoridade; - mais um aspecto é que - num modelo social pós neoliberal, com as estruturas educacionais desgastadas e comprometidas -, a autoridade da escola e do professor são consideradas muito frágeis, tornando-se objetos principais da revolta desses alunos, na impossibilidade, ou ante o perigo, de se confrontarem outras instituições como a polícia, os governantes e a política ou a justiça, dentre outras. No Brasil atual, as crianças e jovens filhas de famílias das classes médias, permanecem na escola durante a educação básica pelo menos durante quinze anos de suas vidas. Os estudos na universidade somam pelo menos mais quatro, podendo chegar, em alguns cursos, aos seis anos ou mais. Os filhos das classes populares não podem esperar tanto tempo. Eles necessitam de respostas e alternativas bem mais imediatas. Por outro lado, quando se fala em aproveitamento pedagógico e aprendizagem, os filhos das classes médias, além do tempo diário que passam na escola, tem a oportunidade de relevante apoio educacional através de numerosos e significativos estudos e atividades extra curriculares, sejam elas dedicadas aos esportes, ao estudo de artes ou línguas estrangeiras. Além do acesso a outros bens culturais como mais informações e viagens. Todo esse conjunto, no final e no percurso de sua vida escolar, vai fazer uma enorme diferença, nem sempre observada e levada em conta nos sistemas nacionais e internacionais de avaliação ou acompanhamento da aprendizagem. Como sugestões, criar mecanismos como a concessão de bolsas de estudo anuais para os estudantes vinculadas à frequência e ao rendimento escolar, além da implantação da escola em tempo integral para as crianças mais pobres ou com maiores dificuldades de aprendizagem, além da visita de monitores aos alunos em sua casa para acompanhamento pedagógico, poderiam trazer melhores resultados: mesmo reconhecendo os custos financeiros e orçamentários de implementação e manutenção dessas medidas por longo prazo. Outra sugestão, é a de formar grupos na escolade até cinco estudantes para aprendizagem cooperativa, onde alunos melhor preparados ou de séries mais adiantadas apoiariam os demais. E onde todos se ajudariam mutuamente. Quanto à contribuição da escola é indispensável que ela ensine e dê acesso às novas gerações a todo o conhecimento e ao máximo de informações que forem possíveis, transportando o ensino e os conteúdos mais uma vez para o centro da missão educacional. É indispensável também fazer uma melhor seleção do que seja mais relevante e importante a ser ensinado, para fugir do excesso de conteúdos considerados excessivos e irrelevantes, fenômeno que a teoria educacional crítica resolveu denominar de “conteudismo”. Desse modo, ensinar o máximo que for possível e da maneira mais criativa e agradável, deve constituir a preocupação central de professores, das equipes pedagógicas e das famílias. Não esquecendo jamais da continuidade e maior ousadia nas políticas de formação, remuneração e valorização social dos educadores. Essas escolhas podem explicitar-se através de opções e políticas, como reação ao relativo fracasso ou a uma não adaptação às exigências intelectuais e comportamentais formais da escola e da sociedade, pelas crianças, jovens e adultos em sua vida escolar. Nunca devendo nos esquecer que escolhas de modelos econômicos importados – com estagnação e desemprego para valorizar artificialmente a moeda, privatizações, ajustes orçamentários e cortes nas políticas sociais e previdenciárias para obter equilíbrio fiscal – estão, muitas vezes, entre os grandes responsáveis pela crise social que tem provocado, de forma mais ou menos consciente, a rebeldia estudantil. E toda a problemática educacional apresentada aqui.
Projeto Geração Esperança
Projeto GERAÇÃO ESPERANÇA O que é? O projeto Geração esperança é uma iniciativa da ONG Associação Geração Esperança (instituição sem fins lucrativos, que visa a transformação integral de crianças e adolescentes do sexo masculino e feminino em situação de risco e suas famílias). Situada na cidade de Fortaleza no estado do Ceará (Brasil), atuando a mais de dez anos junto a crianças e adolescentes em situação de risco: abandono, tráfico, mendicância, exploração sexual, gravidez precoce, abuso sexual, violência doméstica, proliferação de doenças sexualmente transmissíveis, marginalização, falta de estrutura familiar e pobreza. A ONG atua através da CASA DA ESPERANÇA, localizada no bairro de Messejana em Fortaleza, com meninos de rua onde realiza assistência médica, odontológica, educacional, artística, psicológica, lazer e preparação para o trabalho. O objetivo principal da entidade é a reintegração da criança que vive na rua com sua família, através da restauração do vínculo e do acompanhamento familiar. A partir de fevereiro de 2009 com o término da construção do prédio chamado de LAR VIDA NOVA na cidade de Cascavél, situada a 50 Km da cidade de Fortaleza a ONG passa a acolher 400 meninas de rua para a efetivação do mesmo trabalho que já realiza com os meninos. Relevância do Projeto Sendo o Nordeste brasileiro uma das regiões com maiores índices de pobreza no país, as crianças carentes nascidas nesta localidade têm suas vidas destinadas a uma situação de miséria que as aproxima de uma gama de situações de risco, em especial da violência, da exploração sexual e das drogas. Investir em projetos de promoção social vem sendo uma estratégia bem sucedida para dar uma chance à vida destas crianças, afastado-as dos males que as cercam e possibilitando que construam um projeto de uma vida digna.
PROJETO DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES EM INVESTIGAÇÃO DO FENÔMENO DAS DROGAS NA CIDADE DE FORTALEZA E CIDADES PRÓXIMAS (BRASIL).
PROJETO DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES EM INVESTIGAÇÃO DO FENÔMENO DAS DROGAS NA CIDADE DE FORTALEZA E CIDADES PRÓXIMAS (BRASIL). O FENÔMENO DAS DROGAS LÍCITAS E ILÍCITAS NAS CRIANÇAS E ADOLESCENTES EM SITUAÇÃO DE RISCO NA CIDADE DE FORTALEZA. A PERCEPÇÃO DA PROBLEMÁTICA PELOS PROFESSORES E A ATUAÇÃO DOS MESMOS NA PREVENÇÃO AO USO DE DROGAS. Marco Aurélio de Patrício Ribeiro Luís Távora Furtado Ribeiro Foram Realizadas entrevistas com educadores de escolas públicas e particulares com o propósito de conhecer a percepção que eles possuem da problemática das drogas envolvendo crianças e adolescentes. O estudo conseguiu relacionar as dúvidas que os educadores mais têm frente ao consumo de drogas por seus alunos. Os resultados colhidos com as entrevistas permitiram elaborar um projeto de formação continuada para professores e educadores em geral, chamado “Escola de Mestres”. Neste projeto, a Faculdade Sete de Setembro - FA7 e a Universidade Federal do Ceará – UFC, promovem palestras, encontros e debates sobre a temática das drogas (cursos de extensão universitária), com professores de toda a rede pública e privada das cidades de Fortaleza, Aquiraz, Eusébio, Maracanaú e Caucaia. O objetivo é promover a educação como medida preventiva, tornando cada professor um agente na divulgação dos males causados pelas drogas e um orientador para as crianças e jovens sobre como se protegerem do atrativo para consumirem drogas. O projeto atinge diretamente 800 professores por ano e indiretamente cerca de 4000 crianças e adolescentes. O projeto é totalmente financiado pela Faculdade Sete de Setembro FA7, sendo gratuito para os professores que são capacitados.
DROGAS, ADOLESCÊNCIA E O PAPEL DA FAMÍLIA.
DROGAS, ADOLESCÊNCIA E O PAPEL DA FAMÍLIA. Marco Aurélio de Patrício Ribeiro BRASIL Tem sido cada vez mais comum a associação entre a adolescência e as drogas na opinião pública. Notícias que associam a participação de jovens em atos violentos ou ilícitos ligados ao consumo de drogas já não surpreendem mais. Mas por que isso acontece? Talvez pelo fato de estar sedimentada na consciência da sociedade a idéia de que nessa fase da vida a periculosidade, a curiosidade, a contestação e a rebeldia seriam comuns. Em especial, esse conceito recai sobre os adolescentes pobres, eles acabam recebendo o estigma com mais força no imaginário cultural. Uma observação mais cuidadosa e científica leva essa visão por terra e traz à luz que essa associação do jovem às drogas e a violência não é algo natural, óbvio e irrefutável. Os atos de violência não estão necessariamente ligados aos jovens, nem ao uso de drogas, mas sim a um componente social ligado a exclusão social tão presente na nossa sociedade. O que acontece hoje, é que as drogas estão se aproximando cada vez mais dos adolescentes, seja pelo uso de menores de idade como “correio” pelos traficantes, seja como mercado consumidor privilegiado pelo desejo de experienciar o mundo, associado a uma personalidade ainda instável, uma supervalorização dos grupos de iguais, um desejo de pertença ao mundo e um sentimento infantil de onipotência (nada acontece comigo – tudo controlo ou supero). Um dos maiores obstáculos para trabalharmos os adolescentes no sentido de prevenirmos o uso e o abuso de drogas é exatamente a estrutura financeira e econômica que está por traz do tráfico de drogas. Este movimenta no Brasil algo em torno de US$ 5 bilhões, de acordo com a ONU. A questão é problemática, não só no consumo de drogas ilícitas, mas também do álcool e do cigarro, drogas lícitas, pois elas entram de forma devastadora na vida das pessoas, sem pedir licença e com autorização para um “consumo social”. Sabemos que as drogas de alguma forma sempre existiram ao longo da história da humanidade em praticamente todas as culturas, remonta ao ambiente ancestral, cada tribo guardava o seu segredo. A mais antiga língua escrita de que se tem registro – o idioma sumério – praticado no sul da Mesopotâmia desde o terceiro milênio antes de Cristo, continha um ideograma específico denotando a papoula da qual se extraia o ópio “a planta da alegria”. Os homens na busca pelo prazer ou para amenizar sofrimentos, utilizam substâncias que produzem um bem-estar social. Saber disso nos permite a não negação do problema e ao mesmo tempo não exageramos emocionalmente na análise do fenômeno drogas-adolescência. Os adolescentes, por vivenciarem um corpo e uma mente em transformação, o que provoca algum tipo de sofrimento psíquico, constituem uma população de risco em relação ao uso de drogas. A origem da palavra droga vem do holandês antigo droog, que significa “folha seca” (Outeiral 2008). A droga na nossa sociedade, diferente de sociedades primitivas, se tornou um problema grave, adoecendo indivíduos em especial os mais jovens e causando danos sociais por conseqüência. A partir dos anos de 1950 com o uso de solventes, nos anos de 1960 com as substâncias químicas, principalmente a maconha e os alucinógenos fazendo parte da convivência dos movimentos jovens que se intensificavam no mundo todo, ganhando força, as drogas passaram a fazer parte das preocupações no cenário internacional. Nas duas últimas décadas o problema assumiu proporções mais graves ainda. Devido ao aumento da produção, distribuição e comercialização o mercado das drogas se “profissionalizou” e se organizou, conseguindo baratear o valor a ser pago pelo usuário das drogas mais “pesadas”, tornando-as acessíveis aos consumidores de baixa renda, estudantes e consequentemente aos adolescentes. É inegável o aumento do consumo em proporções globais, tornando o comércio das drogas “a segunda maior fonte de renda do planeta, perdendo apenas para a indústria armamentista” (Outeiral, 1999). Por drogas entendemos toda e qualquer substância, lícita ou ilícita, natural ou sintética, que, ao ser introduzida no corpo humano, provoca alterações no seu funcionamento. Segundo a Organização Mundial de Saúde - OMS, uma pessoa pode ser considerada dependente se o seu nível de consumo incorrer em alguns dos seguintes sintomas: - desejo intenso ou compulsão em consumir a substância; - dificuldade em controlar o consumo em termos de início ou término, além da quantidade de substância consumida; - presença da sensação de dependência fisiológica da substância, quando em abstinência da mesma; - evidência de tolerância, de tal forma que o uso da substância necessita ser aumentado para realizar a mesma sensação que antes era obtida com baixa dosagem; - abandono de outros tipos de prazeres ou interesses em favor do uso da substância; - demora crescente em se recuperar dos efeitos da substância consumida; - persistência no uso da substância, mesmo percebendo seus danos. No Brasil, as drogas lícitas são as mais consumidas, seguidas pela maconha, a cocaína e o crack. Existe uma tendência em negar o quanto as drogas “lícitas”- o tabaco e o álcool, em especial – são utilizados em grande escala e os problemas físicos, psíquicos e sociais que acarretam. A sociedade adota uma conduta hipócrita em relação a essas drogas, pois, sabendo dos males que causam, permitem o uso. No mundo todo, o consumo de drogas lícitas e ilícitas vem crescendo intensamente e a idade com que se começa a consumir essas substâncias vem ocorrendo cada vez mais precocemente. Atualmente a idade média mundial de iniciação no uso de drogas está em torno de 13 anos; na década de 1980 girava ao redor de 18 a 20 anos. Percebe-se ainda um aumento no consumo de drogas em geral e em especial o tabaco e o álcool, entre adolescentes do sexo feminino. Apesar da idade inicial do consumo ser maior que a dos adolescentes do sexo masculino, a intensidade do uso se faz de forma mais intensa. A proximidade os adolescentes com as drogas pode ser explicada pelo assédio direcionado dos traficantes a este grupo específico, somado as características inerentes a essa fase da vida, a ausência de uma personalidade sólida; a necessidade de aceitação e individuação; ao hedonismo e a onipotência; a falta de um sentido na vida; soma-se aí a crise de valores; a crise da família; enfim, as crises peculiares da sociedade contemporânea. O QUE LEVA O JOVEM ÀS DROGAS Fatores sociais, em especial a pobreza e a falta de perspectiva de futuro, são as principais causas que aproximam os adolescentes das drogas, é verdade que o uso de substâncias químicas nas classes média e alta cresce a olhos vistos. Estas são também por questões de ordem social, mas não vinculadas à falta do básico para viver, e sim, da crise familiar, do consumismo desenfreado, e da crise ético-social contemporânea. Os adolescentes são o grupo mais frequentemente envolvido no uso de drogas porque facilmente as experimentam, sendo assim, um grupo de alto risco. Temos ainda que considerar a influência sobre eles da cultura atual de buscar a realização do bem-estar imediato, isso pode se apresentar muitas vezes, como um caminho para o uso de drogas. Existem aspectos sociais vinculados ainda, ao estímulo ao uso de drogas lícitas e ao consumo de medicamentos, que deixam o jovem submetido à visão de que pode e deve usar substâncias químicas para fugir “um pouco” e “socialmente” dos sofrimentos e infelicidades do mundo, ficando poderoso. Para ficar mais feliz, também vale usar estimulantes. A sensação de poder é ilusória, mas como o alívio ao sofrimento é sentido, dá a impressão de força e poder. O sujeito pode então encontrar sua auto-estima, sentindo-se gente de novo. (ESSLINGER e KOVÁTS, 2006) Os adolescentes, em sua busca de construir uma identidade e chegar ao sucesso, tão incentivado pela sociedade, muitas vezes se deixam influenciar e manipular pela mídia e o merchandising, em filmes e novelas, sempre usando ídolos jovens como geradores de identificação, para ocorrer o incentivo ao consumo. A profissionalização e organização na produção e comércio das drogas, também é um fator a ser considerado. Os adolescentes supervalorizam o grupo de amigos e iguais. Amigos podem colocar o jovem “para cima” ou no “fundo do poço”; essa valorização ocorre para atender ao desejo de pertença inerente a essa fase da vida, pertencer a uma turma é visto como imprescindível na vida. O grupo de iguais pode induzir ao uso de drogas por ser um espaço onde: podem existir rituais de ingresso; o jovem pode fazer uso para ser aceito; ocorrem situações onde o adolescente tenta se exibir como tendo coragem e nada temer; pode ser um espaço para transgressões, pois traz um sentimento de liberdade da opinião dos pais. A família As profundas transformações que a sociedade sofre – econômicas, culturais e de valores, influenciam e transformam intensamente as famílias e a relação entre seus pares. Hoje, nos deparamos ainda, com grupos familiares constituídos pelos pais e um ou dois filhos, morando em geral distante de seus outros grupos familiares e estando ambos os pais inseridos no mercado de trabalho, portanto, ausentes de casa por longas horas diárias. A estrutura familiar atual pode intensificar os sofrimentos adolescentes, caso a pessoa chegue nesta fase da vida trazendo em si, em alguns casos desde a infância, um sentimento de desamparo. Consequentemente com uma personalidade com maiores chances de apresentar fragilidades, o que o predispõe a adoecimentos, podendo aproximar o jovem do consumo de substâncias químicas, para sentir-se fortalecido e estruturado. Pela importância que a família tem na formação do “que somos, sempre que encontramos o uso de drogas por adolescentes necessariamente devemos nos reportar ao grupo familiar e suas dificuldades, muitas vezes não manifestas. É comum encontrarmos o fato de terem sido medicados compulsivamente por seus pais, quando crianças. A superproteção ou o desejo de “se livrar” do incômodo choro, leva pais a, no primeiro choro sem uma causa fácil de ser entendida, já lançar mão de analgésicos ou outra substância química. Assim, foram ensinados a fazer uso de “algo” que alivie o sofrimento, ao surgir qualquer tensão, dor ou problema na vida. Há em algumas famílias uma espécie de cultura alcoólatra, onde a presença de bebidas é tratada como indispensável para que os encontros, festas e reuniões familiares tenham “graça”. Este “modelo” ou modo de ser dos adultos, faz o adolescente começar a acreditar que sem estar “meio alto” não vai conseguir divertir-se. Nossa sociedade vive uma intensa transformação e o grupo familiar acompanha esse processo. O sistema patriarcal cede lugar ao nuclear, com famílias menores, pais trabalhando fora de casa e filhos “enclausurados” com medo da violência. Percebe-se, certo sentimento de culpa por parte dos pais por não darem atenção e presença aos filhos, esta culpa se expressa muitas vezes em comportamentos compensatórios tais como o consumismo e a negativa, muitas vezes inconsciente, em dar ou ensinar limites aos filhos. Assim, as crianças crescem com um sentimento misto de abandono, felicidade no consumo e desvalorização dos limites, o que tem gerado adolescentes neonarcisistas, despreocupados com o mundo e que supervalorizam as questões pessoais, em detrimento da sociedade. Esses adolescentes tornam-se solo fértil para a ocorrência de comportamentos perversos, desrespeito aos valores e aproximação com perigosos grupos de iguais, próximos das drogas. O adolescente Existe uma confusão entre os termos adolescência e puberdade. Apesar dos dois fenômenos estarem estreitamente relacionados, são diferentes. Puberdade (de puber = pêlos) é o processo biológico que na nossa sociedade se inicia entre 9 e 14 anos e se caracteriza pelo surgimento de uma atividade hormonal que desencadeia os “caracteres sexuais” primários e secundários. Já a adolescência é um fenômeno basicamente psicossocial, portanto, há diferenças na vivência desta, conforme o ambiente sócio-econômico e cultural em que o adolescente se desenvolve. Sempre se observava que a adolescência e a puberdade ocorriam simultaneamente, teóricos defendiam a vinculação entre elas, no entanto, nos últimos 20 anos, vem sendo cada vez maior o número de jovens que já vivenciam conflito adolescentes antes mesmo do surgimento das mudanças físicas da puberdade. A palavra adolescência tem dupla origem etimológica e caracteriza muito bem as peculiaridades desta fase da vida, como nos diz OUTEIRAL: A palavra vem do latim ad (a, para) e olescer (crescer), significando o processo de crescimento – apto para crescer. Também deriva de adoecer (em termos do sofrimento emocional sentido pelo jovem). Há autores que ainda consideram uma terceira origem: “dolo”, causar dano a alguém. (OUTEIRAL, 2008). O termo adolescente é recente, remonta a 1904, quando foi utilizado pela primeira vez por médicos e biólogos para identificar a juventude inicial, com suas características. A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera a adolescência como constituída em duas fases: a primeira, dos 10 aos 16 anos, e, a segunda de 16 a 20 anos. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA no Brasil) situa entre 12 e 18 anos. Em geral, para os psicólogos, a adolescência ocorre em três etapas, não muito precisas, a adolescência inicial (10 a 14 anos) caracteriza-se pelas transformações corporais e alterações psíquicas derivadas destas. A adolescência intermediária (14 a 17 anos) tem como centro, questões ligadas à sexualidade. A terceira etapa (adolescência final) ocorre de 17 a 20 anos, caracterizada pela preocupação com questões organizacionais (profissionais), criação de novos vínculos com os pais, e a aceitação do novo – mundo adulto – com o novo corpo e os novos processos psíquicos. É comum no adolescente um sentimento de solidão e de vazio, o que o leva a buscar preencher esse espaço, gerado pelas perdas relacionadas ao “novo parto” por que passa, nascendo da infância para o mundo adulto. Tal sentimento tem características depressivas (baixa autoestima, abulia em relação ao estudo e ao lazer coletivo, irritabilidade, choro e queixas de mal-estar orgânico). A intensidade dos sentimentos e dos sofrimentos adolescentes pode ser moderada ou intensa se as vivências infantis, o relacionamento com os pais, além das vivências atuais tenham sido, ou estejam sendo, vividas com maior ou menor turbulência. Existem ainda fatores inatos do sujeito tais como: o temperamento, a introversão, a dificuldade em lidar com frustrações ou desafios, que podem aumentar a intensidade das vivências adolescentes e a maior ou menor propensão para o uso de drogas. Pensamos que os adolescentes que desenvolvem uma tendência maior a buscar aditivos são em geral aqueles que: 1. Têm no grupo familiar comportamentos indutores ao consumo de substâncias químicas; 2. Pertencem a grupos familiares que apresentam condutas de superpermissividade, superproteção ou superautoridade e superexigência; 3. Os pais são ausentes, fracos ou excessivamente rigorosos; 4. São adolescentes impulsivos, solitários, que têm dificuldade de protelar satisfações e tolerar frustrações; 5. Têm dificuldade em simbolizar e fazer uso da linguagem para se expressar; 6. Predominam ações motoras (infantis) em detrimento da linguagem na resolução de conflitos; 7. Expõem-se a situações de risco com claro comportamento autodestrutivo; 8. Têm dificuldade em colocar-se no lugar do outro (empatia); 9. Têm características de personalidade depressiva ou com estrutura patológica; 10. Têm personalidade instável e que usam a identificação como reforçamento do EGO para sentirem-se mais seguras; 11. Valorizam grupos com características regressivas (gangues), com fortes líderes anti-sociais, agressivos, com comportamentos narcisistas e / ou sádicos; 12. Têm dificuldade escolar de conduta ou aprendizagem, com um crescente desinteresse por aprender o que a escola ensina e permanecer nela. As estatísticas mostram que apesar do problema das drogas serem grave e preocupante, apenas um pequeno percentual de adolescentes 3% a 5% desenvolvem uma verdadeira drogatização, com consumo constante e persistente de drogas. A curiosidade tem sido um dos motivos mais alegados pelos adolescentes para provar os diferentes tipos de drogas, não necessariamente os chamados “adolescentes provadores” desenvolverão o vício. Definimos como viciado o jovem que faz uso de drogas de maneira constante, desenvolvendo dependência física e / ou psicológica. Adolescentes que experimentam o tóxico em companhia de amigos da mesma idade (portanto em público), usam drogas mais leves como a maconha, não fizeram uso de injetáveis, mantém o interesse pelo mundo que o cerca e mantém algum tipo de atividade física ou esportiva, dificilmente correm o risco de tornarem-se toxicômanos. Por outro lado, jovens que usam drogas sozinhos ou induzidos por viciados ou traficantes (na maioria das vezes mais velhos que eles), passam a usar drogas mais pesadas ou injetáveis, fazem uso de êxtase ou crack, desligam-se progressivamente do mundo real (vivendo um mundo à parte), fracassam na escola, perdem rendimento intelectual, deixam de se interessar por esportes que antes adoravam e demonstram desinteresse pelo lazer; apresentam com estas posturas, uma propensão maior ao desenvolvimento de uma dependência crônica e muitas vezes mortal de substâncias psicoativadoras. A onipotência adolescente faz com que ele acredite que poderá parar na hora que quiser, na prática isso não ocorre, essa percepção de ter controle total sobre si é um aspecto que pode levar o adolescente a consumir doses crescentes de drogas, muitas vezes testando o próprio limite, colocando a vida em risco. Um aspecto que se deve destacar é a relação das drogas com a violência. A OMS (Organização Mundial de Saúde) em 1993 no Rio de Janeiro apresentou um relatório no qual destaca que nos EUA, 80% dos crimes têm as drogas como causa. No Brasil a situação não é muito diferente, e deve-se destacar que no nosso país em 20% dos casos de assassinatos de crianças o tóxico é fator contribuinte (OMS, 1993). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CONSELHO NACIONAL DE PSICOLOGIA. Psicologia, ciência e profissão: diálogos. Ano 6, no. 6, novembro de 2009. ESSLINGER, Gunther & KOVÁCS Maria Júlia. Adolescência: vida ou morte. São Paulo – SP: Ática, 2006. Organização Mundial de Saúde – OMS. Relatório sobre a situação das crianças no mundo. 1993. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Síntese dos indicadores sociais. 1998. KLOSINSKI, Gunther. Adolescência hoje. Petrópolis – RJ: Vozes, 2006. OUTEIRAL, José. Adolescer. Rio de Janeiro – RJ: Revinter, 2008.